CLEÓPATRA

História de Cléopatra

A biografia de Cleópatra é envolta em sangue, mas isto não era novidade na história do Antigo Egito (aliás, de nenhuma civilização antiga).

Quem hoje chamamos apenas de Cleópatra era, na verdade a sétima Cleópatra. Filha de Ptolomeu XII e Cleópatra VI, nascida em 69 a.C., Cleópatra VII teve mais quatro irmãos: Berenice IV, mais velha que ela, mas que foi assassinada pelo pai; Arsinoe IV, mais nova, que seria assassinada por Cleópatra; Ptolomeu XIII, com quem Cleópatra se casaria; e Ptolomeu XIV, com quem Cleópatra também se casaria, após a morte do irmão – e que também seria morto por Cleópatra. O casamento entre irmãos era um costume do Antigo Egito que foi adotado pelos invasores (o sangue de Cleópatra era grego). Mais que um fetiche pelo incesto, o objetivo era reduzir as chances de o poder mudar de família. Porém, Cleópatra não teve filhos com nenhum dos irmãos. O casamento acontecia, outras vezes, quando um filho que deveria assumir o trono era ainda uma criança e possuía uma irmã mais velha. Quando Cleópatra se casou com Ptolomeu XIII, ele tinha apenas 10 anos – ela, 18.

Cleópatra era bastante educada – falaria com fluência nove idiomas, inclusive o egípcio. Isto seria importante, pois nenhum de seus antepassados se preocupou em falar a língua local. Bonita não era, mas era simpática.

Estamos em 51 a.C. Nesta época, o capital do Egito era Alexandria. Logo no começo do seu reinado, a população, que sofria com a seca, se revoltou contra Cleópatra, quando ela resolveu financiar uma campanha militar do general romano Pompeu, amigo de seu falecido pai – um dos nomes que Cleópatra se deu foi Cleopatra Thea Philipator, Deus que Ama o Pai. Há que se lembrar que seu pai praticamente teve que comprar a manutenção da independência do Egito; assim, Cleópatra mantinha a política de comprar boas relações com o Império Romano.

Com a pressão popular, ela teve que fugir, para o deserto da Síria. E Pompeu perdeu para César.

César foi para o Egito e quis encontrar os dois irmãos. Instalou-se no palácio de Ptolomeu. Mas o pequeno Ptolomeu queria assumir o comando sozinho e proibiu o retorno de Cleópatra. Diz a história, ou lenda, que ela se enfiou numa sacola de papiros e foi despejada no quarto de César. Ptolomeu ordenou um cerco ao castelo, que durou alguns meses. Mas Ptolomeu acabaria preso. Arsínoe assume seu trono.

Ptolomeu pediu clemência a César. Diz-se que Cleópatra anteviu o que aconteceria e aconselhou César a perdoar Ptolomeu. Logo após o perdão, Ptolomeu novamente tentou destituir o casal. Reforços vindos do Império Romano obrigaram Ptolomeu XIII a fugir e ele morreria nesta fuga. Arsinoe é presa e logo Cleópatra ordenaria sua execução.

Termina, assim, a Guerra Alexandrina. Como bônus, Cleópatra está grávida de César – nasceria Ptolomeu XV Cesar (ou simplesmente Cesário).

A união conjugal entre César e Cleópatra não seria bem vista, especialmente em Roma. Assim, ela se casa com o irmão Ptolomeu XIV – mais tarde, entretanto, ele seria envenenado por Cleópatra, e Cesário se tonaria corregente.

No Império Romano, Júlio César é assassinado por senadores, em 44 a.C. Seu sobrinho, Otaviano, juntamente com Marco Antônio, derrotam os assassinos de Júlio César.

Cleópatra, agora, sabia que precisava conhecer Marco Antônio. Com uma comitiva extremamente luxuosa, os navios de Cleópatra chegaram a Tarso, em 41 a.C. Cleópatra era muito rica – calcula-se que, em valores atuais, seu patrimônio beiraria os 100 bilhões de dólares.

Não demoraria para que ela e Marco Antônio se envolvessem – e tivessem três filhos: Alexandre Hélio, Ptolomeu Filadelfo e Cleópatra Selene. Com Marco Antônio, Cleópatra ficaria até sua morte, 11 anos depois do encontro. É provável que Cleópatra só tenha ido para a cama com Júlio César e com Marco Antônio, bem ao contrário do que diz a lenda. Com o último, parecia ter uma relação feliz – chamavam-se de Inimitáveis Viventes, pois, entre festas e banquetes, gozavam uma vida luxuosa.

Contudo, a relação entre Otaviano e Marco Antônio ficava tensa. A grande preocupação era com Cesário, que poderia acabar se tornando herdeiro do Império Romano. Para acalmar Otaviano, Marco Antônio se casou com Otávia, irmã dele. Mas Marco Antônio logo resolveu se mudar de vez para o Egito e ficar com Cleópatra. De lá, comandou guerras de expansão – e dividia novos territórios com a mulher.

Otaviano começou a difamar Cleópatra e Marco Antônio. Finalmente, no final de 32 a.C., Otaviano declarou guerra contra Cleópatra. Muitos romanos que estavam com Marco Antônio não aceitaram o comando da mulher, e desertaram. Na Batalha do Ácio, naval, quando Cleópatra resolve voltar ao Egito, a debandada foi geral.

O casal agora passou a se chamar de Companheiros da Morte, pois previam que Otaviano pretendia invadir Alexandria. Cleópatra tentou negociar sua clemência, mas Otaviano queria, em troca, a cabeça de Marco Antônio.

Quando Otaviano chegou a Alexandria, Cleópatra retirou-se para seu mausoléu e mandou avisar a Marco Antônio que havia se suicidado. Marco Antônio enfiou uma espada no peito, mas não morreu. Foi ao mausoléu e encontrou Cleópatra, que se desesperou. Enquanto ele morria, os homens de Otaviano chegaram ao mausoléu. Cleópatra é presa e, alguns dias depois, se mata, tomando veneno, em 30 a.C.

Acaba aqui a história do Antigo Egito, terra que, agora, pertencia ao Império Romano.

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Bibliografia: A última faraó, revista Aventuras na História, edição 93 (abril de 2011), páginas 26 a 34.

Análise: a vida e a imagem de Cleópatra

Cleópatra é a mais famosa das mulheres que governou o Egito. Esta fama tem vários motivos. O primeiro deles é o próprio fato de ser mulher. Até hoje é incomum que uma mulher seja o ser mais poderoso de uma organização.

Porém, pesa sobre Cleópatra também uma acusação: a de que foi responsável pelo fim do Império Egípcio. De fato, para muitos historiadores o Antigo Egito dura de 3100 a 30 a.C. Este ano foi o ano da morte de Cleópatra, o ano em que o Império Romano assumiu o controle do território. Entretanto, a acusação não é muito justa. Se analisarmos bem a história do Antigo Egito, veremos que há muitos séculos um nativo egípcio não governava o país. O que acontece com a derrocada de Cleópatra, então, é que o Egito muda novamente de dono. Mas é fato também que até Cleópatra mantinha-se uma farsa, por parte dos governantes, de preservação dos costumes do Antigo Egito. Os romanos não se preocuparam muito com isto e, realmente, aí sim o Antigo Egito morreu de vez.

É culpa de Cleópatra a agonia do Antigo Egito, portanto? Não necessariamente. Ela tentou, realmente tentou manter o poder. Se fosse outro governante em seu lugar, teria conseguido? É possível, mas, se formos ficar no campo da especulação, o mais provável é que, mais cedo ou mais tarde, o Egito cairia nas mãos dos romanos, cada vez mais armados e poderosos. Assim, Cleópatra tanto pode não ser a culpada pela derrocada egípcia, como pode ter morrido em vão, tentando manter o poder – mas o que mais poderia fazer?

Para tentar manter o Egito intacto, Cleópatra usou do seu poder de sedução, junto aos líderes romanos. Daí vieram duas famas que provavelmente não sejam verdadeiras: Cléopatra era bonita; Cleópatra era devassa.

Se seduzia, é porque era bonita. Se seduzia muitos, é porque era pervertida. Eis o que conclui o raciocínio fácil. Porém, os estudos históricos desmentem estas duas conclusões. Moedas cunhadas com o rosto de Cleópatra mostram que estava longe da beleza de uma Elizabeth Taylor, que em um filme hoje clássico, ajudou a consolidar esta lenda sobre as feições de Cleópatra. Além disto, é possível que tenha tido como amantes apenas os generais romanos com os quais teve filhos. Ou seja, teria sido até bem comportada sexualmente.

A mitologia sobre Cleópatra começou a nascer já durante seu governo. Romanos preocupados com sua influência sobre o Império começaram a difamá-la. A sua morte trágica (mesmo que também não tenha sido como diz a lenda, com uma suicida picada de serpente) abriria as portas para que as histórias a seu respeito começassem a aumentar.

Atualmente, certos trabalhos tentam reabilitar a imagem de Cleópatra, colocando-a menos como sedutora e mais como inteligente, ou “brilhante estrategista”, como quase todos costumam dizer. É uma ação um pouco apaixonada, ainda, pois, se considerarmos que seus planos culminaram com sua morte e com o fim do Antigo Egito, de forma alguma poderíamos concordar que Cleópatra foi uma boa estrategista de longo prazo.

Sua vida foi uma tragédia gerida pela ambição.

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